Valorizar o trabalho dos colaboradores que atual na linha de frente é um dos fatores que ajudam a definir o sucesso ou fracasso das atividades de uma empresa, bem como o aumento de produtividade e motivação no ambiente profissional. Por isso, vale a pena considerar com atenção o Senso de Pertencimento do Vigilante a fim de identificar pontos que precisam ser melhorados na sua empresa.
Um comentário recente aqui no blog, do leitor “Mardônio Silva”, trouxe à tona uma realidade desconfortável no setor de segurança privada: “O vigilante muitas vezes se sente mais valorizado pela empresa contratante do que pela própria empresa que o contratou“.
Esse relato funciona como um sinal de alerta. Ele evidencia que o sentimento de pertencimento, que sustenta o engajamento e a responsabilidade profissional, encontra-se fragilizado e deslocado na maiorias das empresas de segurança privada.
Quando o apoio da prestadora de serviço é inexistente ou insuficiente, a percepção de fazer parte do negócio da empresa torna-se distante, e os impactos dessa lacuna são graves para a sustentabilidade da empresa de segurança a médio e longo prazo.
Essa frase é um alerta vermelho. Ela revela que o sentimento de pertencimento, a necessidade humana de sentir-se parte de um grupo e valorizado por ele, está em xeque em uma das profissões mais críticas para a sociedade.
O que é Sentimento de Pertencimento?
Em termos simples, pertencimento é a necessidade humana de se sentir conectado, aceito e valorizado por um grupo. Trata-se da percepção de fazer parte de algo maior do que si mesmo.
O psicólogo Abraham Maslow, em sua famosa pirâmide das necessidades humanas, colocou o sentimento de pertencimento logo após as necessidades básicas (comida e segurança). Para nós, humanos, ser excluído do “bando” historicamente significava perigo; por isso, nosso cérebro busca conexões reais e fortes para se sentir seguro.
No contexto profissional, o pertencimento vai muito além de usar um crachá ou vestir o uniforme da empresa. Ele marca a diferença entre o colaborador que apenas cumpre tarefas e aquele que se percebe como parte ativa do negócio da empresa. Envolve sentir que o seu trabalho contribui para o objetivo da empresa e que a empresa reconhece seus esforço, valoriza sua contribuição e fornece apoio as suas necessidades. O famoso “Tamo Junto“.

Por que o Senso de Pertencimento é importante?
Não é apenas “bondade” corporativa; é estratégia de gestão de pessoas. O impacto do pertencimento nos resultados é direto:
- Retenção de Talentos: Pessoas que se sentem parte da “empresa” dificilmente saem apenas por uma oferta salarial ligeiramente maior.
- Engajamento: Em ambientes onde pertenço, eu me comprometo com os resultados, defendo os interesses da instituição e busco superar as dificuldades para atingir os objetivos compartilhados.
- Saúde Mental: O sentimento de isolamento e descaso no trabalho é um dos maiores gatilhos para a desmotivação, sentimento de desprezo e depressão profissional. O pertencimento atua como um escudo protetor.
Efeito do Distanciamento do Local de Serviço
O trabalho do vigilante é, por natureza, distante da sua empresa contratante. Ele está fisicamente no cliente, protegendo o patrimônio e as vidas de pessoas que ele passa a conhecer no local. É natural que o vínculo emocional se crie ali.
No entanto, o problema surge quando a empresa de segurança (a empregadora) se torna apenas um logotipo no holerite e uma voz distante que só aparece para cobrar resultados, punir ou demiti-lo sob a alegação de falhas profissionais. Quando a prestadora não dá atenção adequada, não oferece apoio no posto e não escuta as dificuldades operacionais, o vigilante sente-se como um “soldado esquecido no front”.
Como a empresa Influência no Pertencimento
A empresa de segurança é a principal responsável por “plantar” ou “destruir” o sentimento de pertencimento. Muitas vezes, por foco excessivo em custos, logística ou incompetência na gestão de pessoas, elas negligenciam o fator humano, transformando o vigilante em um “Sem-Terra Corporativo”.
Aqui estão os principais comportamentos da prestadora que corroem esse vínculo:
1. A Gestão “Fantasma” (Ausência de Suporte)
Este é o maior vilão citado pelos profissionais. A empresa só aparece para o vigilante em dois momentos: para entregar o uniforme (geralmente uma vez por ano) ou para aplicar uma advertência.
- O impacto: O vigilante sente que não tem um “porto seguro”. Se ele tem um problema no posto, ele se sente desamparado. Essa ausência envia a mensagem: “Você está por sua conta, nós só queremos o seu posto preenchido, para receber a fatura do cliente”.
2. Tratamento de “Comoditização”
Muitas empresas vendem o serviço de segurança como se estivessem alugando uma máquina, e passam esse sentimento para o colaborador.
- Falta de Feedback: O profissional nunca sabe se está indo bem.
- Uniforme e Equipamento Sucateados: Entregar uma farda gasta, um coturno usado, uma capa de cole balístico sem painel balístico ou vencido, um rádio que não funciona é a prova física de que a empresa não valoriza a imagem e a segurança do seu próprio funcionário.
3. Falha na Integração (O “Jogado no Posto”)
A empresa contrata o vigilante na segunda-feira e o coloca no posto na terça, sem explicar a cultura da empresa, os valores ou a politica de gestão de recursos humanos.
- O impacto: Ele entra no cliente sem saber o que a sua própria empresa espera dele. Ele não se sente um “Vigilante da Empresa X”, mas sim um “substituto de alguém que saiu”.
4. Comunicação Unilateral
A comunicação da empresa é sempre de “cima para baixo”: ordens, escalas e normas. Não há um canal onde o vigilante possa sugerir melhorias, reportar riscos que ele observou no dia a dia ou relatar suas necessidades e dificuldades profissionais.
- A invisibilidade: Ao ignorar a visão técnica do vigilante, a empresa mata o orgulho profissional. Ele deixa de ser um “especialista em segurança” para ser um “cumpridor de horários”.
O Resultado: O “Limbo” da Dupla Identidade
Quando a empresa prestadora de serviços falha nesses pontos, ela empurra o vigilante para o Limbo. Como ele não recebe atenção da “empresa-mãe”, ele tenta se apegar ao cliente para se sentir humano.
O risco é que, quando o cliente elogia o vigilante e a prestadora o ignora, o colaborador passa a ver a sua própria empresa como um “atravessador” que só serve para pegar parte do seu salário.
Supervisão Ineficiente Destrói o Pertencimento
No setor de segurança privada, a supervisão é o principal elo de ligação entre a estratégia da empresa e a realidade do posto. Quando ela falha, o sentimento de pertencimento desmorona. A supervisão ineficiente não é apenas “não visitar o posto”; é visitar da forma errada ou com o foco invertido.
1. A Supervisão “Policialesca” (Foco no Erro)
Muitos supervisores agem apenas como fiscais. Eles chegam ao posto apenas para procurar o que está errado: o coturno sujo, o atraso de 2 minutos, o celular na mão.
- O Problema: O vigilante passa a ver o supervisor (e a empresa) como um inimigo ou um carrasco. Ninguém sente que pertence a um lugar onde só é notado quando erra.
- O Resultado: O profissional trabalha com medo, não com lealdade.
2. O Supervisor “Vapt-Vupt” (Falta de Escuta)
É aquele que passa pelo posto, assina o livro de ocorrências e sai em 30 segundos sem sequer olhar nos olhos do vigilante.
- O Problema: Isso reforça a Cultura de Invisibilidade. O vigilante tem informações valiosas sobre riscos no cliente, mas percebe que a empresa não tem interesse no seu conhecimento técnico.
- O Resultado: O profissional entra no “Limbo”, sentindo que sua opinião não tem valor para a “empresa-mãe”.
3. A Falta de Resposta (O Supervisor “Promessa”)
O vigilante reporta um problema, uma lâmpada queimada na guarita, uma ameaça que sofreu ou um uniforme rasgado. O supervisor diz que “vai ver” e nunca mais dá um retorno.
- O Problema: A ineficiência em resolver problemas operacionais básicos é lida como descaso.
- O Resultado: O vigilante conclui: “Se eles não cuidam de mim, por que eu deveria cuidar do patrimônio deles?”.
O Papel do Supervisor como “Arquiteto de Pertencimento”
Para reverter esse quadro, a supervisão precisa mudar de fiscalização para liderança de campo.
Supervisão Ineficiente (O Fiscal) Supervisão Eficiente (O Líder) Foca apenas na punição e disciplina. Foca no suporte e no reconhecimento. Visita apenas para assinar papéis. Visita para ouvir desafios e feedbacks. Ignora o bem-estar físico do vigilante. Verifica as condições de trabalho e segurança. Trata o vigilante como um subordinado. Trata o vigilante como um especialista técnico. Deslize para o lado para ver parte ocultaO Perigo do Pertencimento “Deslocado”
Como o comentário do Mardônio Silva bem pontuou, Em muitos casos, em função do sentimento de Despertencimento, o profissional acaba se sentindo mais valorizado pelo cliente. Embora o bom relacionamento com o contratante seja positivo, o pertencimento deslocado (sentir que pertence ao cliente, mas não à sua empresa) gera riscos:
- Fragilidade Institucional: O vigilante perde a conexão com as diretrizes e treinamentos da sua empresa de origem.
- Conflito de Interesses: Em situações delicadas, ele pode ter dificuldade em seguir protocolos rígidos da segurança se isso confrontar a “amizade” com o cliente que o acolhe melhor que seu patrão.
- Desmotivação Silenciosa: Ao perceber que sua empresa não se importa com seu bem-estar no posto (condições físicas, rendição, suporte psicológico), o profissional entra em modo automático. E, na segurança, o “modo automático” pode ser fatal.
- Frustação e descontentamento profisisonal:
O Custo do Descaso para as Empresas de Segurança
Empresas de segurança que ignoram a gestão de pessoas e o pertencimento sofrem com:
- Alta Rotatividade (Turnover): O vigilante sai pela primeira oferta que prometa um tratamento mais humano.
- Falhas de Vigilância: O desatenção e o desânimo diminuem o estado de alerta.
- Mancha na Reputação: No mercado de segurança, a melhor propaganda é a postura do vigilante no posto. Um profissional que se sente abandonado transparece isso em sua farda, em sua postura e no seu atendimento.
Como Resgatar o Pertencimento na Segurança Privada?
Para reverter esse quadro, as prestadoras precisam entender que gestão de contratos não é gestão de pessoas. É preciso:
- Presença Real: Inspetores, supervisores e gestores devem visitar os postos não apenas para fiscalizar a farda, mas para ouvir o profissional. “Como você está?” e “O que você precisa para trabalhar melhor?” são perguntas poderosas e que devem ser feita.
- Canais de Escuta Ativa: O vigilante no posto muitas vezes vê riscos que ninguém mais vê. Dar voz a ele para sugerir melhorias no plano de segurança do cliente gera valorização técnica.
- Garantia de direitos e benefícios: A empresa deve assegurar a entrega correta de direitos, benefícios e condições acordadas, demonstrando respeito e compromisso com o profissional.
- Cultura de Reconhecimento: Celebrar o tempo de casa, o elogio recebido de um cliente ou uma ação bem-sucedida. O vigilante precisa saber que a sede da empresa sabe quem ele é.
Conclusão
O sentimento de pertencimento é o que mantém a espinha dorsal de um profissional de segurança ereta. Quando a empresa prestadora negligencia seu time, ela não está apenas economizando em gestão; ela está perdendo a lealdade de quem coloca a própria vida em risco pelo seu CNPJ.
Segurança se faz com tecnologia e processos, mas, acima de tudo, se faz com pessoas que sentem que fazem parte de algo maior. Uma farda só tem valor se quem a veste se sente respeitado por quem a forneceu.
“Você, que trabalha na segurança, sente que sua empresa sabe quem você é hoje? Ou você é apenas um número no posto?”
Um forte abraço e votos de sucesso!
Autor José Sergio Marcondes
Diretor Executivo no IBRASEP. Apaixonado pela área de segurança privada, dedica-se continuamente ao estudo e à disseminação de conhecimento, sempre com a missão de desenvolver e valorizar o setor e os profissionais que atuam nele.
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