
Gestão por processos é uma abordagem de gestão que organiza, coordena e melhora o trabalho a partir dos processos necessários para entregar resultados ao cliente e alcançar os objetivos da organização. Seu foco está no fluxo completo das atividades, nas conexões entre as áreas e no desempenho das entregas.
Quando uma empresa enfrenta atrasos, retrabalho ou falhas de comunicação, o problema pode estar na forma como o trabalho passa de um setor para outro. Cada equipe pode cumprir suas tarefas e, mesmo assim, o resultado final ficar abaixo do esperado.
Entender essa abordagem permite identificar onde o trabalho perde eficiência, definir responsabilidades e estabelecer melhorias. Neste artigo, você conhecerá seus benefícios, pilares e diferenças em relação à gestão funcional, além de um caminho prático para implementação.
O que é gestão por processos?
Gestão por processos significa administrar a organização considerando como suas atividades se conectam para produzir resultados. A análise acompanha o trabalho desde a necessidade que o inicia até a entrega que atende ao destinatário.
Um processo organizacional é um conjunto de atividades relacionadas que utiliza entradas, como informações, materiais e solicitações, para gerar uma saída. Essa saída pode ser um produto, um serviço, uma decisão ou uma informação necessária a outro processo.
Na compra de materiais, por exemplo, a solicitação inicia um fluxo que envolve especificação, aprovação, seleção do fornecedor, aquisição, recebimento e disponibilização. O resultado esperado é ter o material adequado disponível no momento necessário, respeitando os critérios definidos.
A abordagem se relaciona ao BPM, sigla de Business Process Management, ou gerenciamento de processos de negócio. A ABPMP Brasil apresenta o BPM como uma disciplina que envolve identificar, projetar, executar, documentar, medir e controlar processos, alinhando-os aos objetivos estratégicos.
Nesse contexto, os processos costumam ser classificados em:
- Processos principais: entregam diretamente o produto ou serviço ao cliente, como produção, venda e prestação de serviços.
- Processos de apoio: fornecem condições para as demais atividades, como compras, gestão de pessoas e manutenção.
- Processos gerenciais: orientam e avaliam a organização, como planejamento, acompanhamento de resultados e gestão de riscos.
Essa classificação deve refletir o funcionamento de cada organização. Um mesmo processo pode ter importância diferente conforme o modelo de negócio.
Qual a diferença entre gestão funcional e gestão por processos?
A gestão funcional enfatiza a organização do trabalho por áreas especializadas. A gestão por processos acrescenta uma visão integrada do fluxo que conecta essas áreas e produz a entrega final.
O material de análise e melhoria de processos disponibilizado pela Enap apresenta essa diferença considerando aspectos como organização das equipes, avaliação de desempenho e integração dos sistemas de informação.
| Aspecto | Gestão funcional | Gestão por processos |
|---|---|---|
| Foco predominante | Atividades e resultados de cada departamento | Desempenho do fluxo completo e da entrega |
| Coordenação | Responsabilidades organizadas por área | Responsabilidades articuladas entre as áreas participantes |
| Indicadores | Medidas de desempenho dos setores | Medidas das etapas e do resultado final do processo |
| Melhorias | Aperfeiçoamento das atividades da área | Aperfeiçoamento do fluxo e das interfaces entre setores |
| Comunicação | Acompanha principalmente a estrutura hierárquica | Também acompanha as necessidades de interação do processo |
Na prática, essas perspectivas podem coexistir. Os departamentos mantêm suas especialidades, enquanto os responsáveis pelos processos coordenam as interdependências e acompanham os resultados compartilhados.
Em um exemplo hipotético, o comercial fecha uma venda rapidamente, mas transmite informações incompletas ao operacional. A venda foi realizada, porém a implantação do serviço sofre atrasos. A gestão por processos examina essa passagem de informações e seu efeito sobre a entrega ao cliente.
Quais os benefícios da gestão por processos?
Os benefícios decorrem de compreender o fluxo de trabalho e atuar sobre suas causas de falha. A ISO inclui a abordagem de processos entre os princípios da gestão da qualidade, junto com foco no cliente, melhoria e decisões baseadas em evidências.
Entre os benefícios esperados estão:
- Redução de retrabalho: informações, critérios de aceitação e responsabilidades mais claros ajudam a evitar devoluções e correções repetidas.
- Maior integração: as equipes compreendem o que precisam receber e entregar para que o trabalho avance.
- Melhor uso dos recursos: a análise permite identificar esperas, duplicidades e atividades desnecessárias.
- Maior previsibilidade: padrões, controles e acompanhamento ajudam a cumprir prazos e requisitos.
- Melhoria da experiência do cliente: o desempenho passa a considerar a solução entregue e a qualidade do atendimento.
- Decisões mais fundamentadas: indicadores e registros permitem priorizar problemas com base em evidências.
- Melhor tratamento dos riscos: falhas possíveis e controles necessários são considerados ao longo do fluxo.
Esses resultados dependem da execução das mudanças. Elaborar fluxogramas, por si só, não assegura melhoria. É necessário utilizar o conhecimento produzido para orientar o trabalho e verificar seus efeitos.
Pilares da gestão por processos
Para orientar a aplicação, os fundamentos da gestão por processos podem ser organizados em seis pilares complementares. A divisão abaixo é uma síntese prática para conectar direção, execução e avaliação.
1. Alinhamento estratégico e foco no cliente
Cada processo precisa contribuir para um objetivo e atender a requisitos definidos. Isso orienta prioridades: reduzir o tempo de resposta pode ser relevante para o atendimento, enquanto assegurar disponibilidade pode ser essencial para a manutenção.
O cliente pode ser externo ou interno. Em ambos os casos, é preciso compreender o que caracteriza uma entrega adequada.
2. Visão integrada do trabalho
As atividades devem ser analisadas com suas entradas, saídas e dependências. Melhorar uma etapa exige observar seu efeito nas seguintes.
Por exemplo, acelerar a contratação sem verificar os requisitos da função pode transferir problemas para o treinamento e para a operação. A melhoria deve considerar o resultado de todo o fluxo.
3. Governança e responsabilidades
Governança de processos é a definição de regras, responsabilidades e critérios de decisão para conduzir e acompanhar os processos.
Convém designar um responsável pelo desempenho de cada processo prioritário, frequentemente chamado de gestor ou dono do processo. Sua autoridade para coordenar melhorias e resolver conflitos deve ser estabelecida pela direção, em articulação com os gestores das áreas.
4. Pessoas capacitadas e participação
Quem executa o trabalho conhece dificuldades que nem sempre aparecem nos documentos. Essas pessoas devem participar do diagnóstico, da construção das soluções e da avaliação das mudanças.
Também precisam compreender o fluxo, os critérios de execução e quando solicitar apoio. A capacitação deve alcançar tanto a tarefa individual quanto sua relação com a entrega final.
5. Padrões, informação e recursos
Procedimentos, registros, equipamentos e sistemas precisam apoiar a execução. A documentação deve esclarecer o necessário, com detalhe proporcional à complexidade e aos riscos.
A tecnologia pode integrar informações e reduzir tarefas repetitivas. Antes de automatizar, porém, convém verificar se o fluxo e suas regras são adequados.
6. Medição, controle e melhoria contínua
O desempenho precisa ser acompanhado por indicadores, análise de desvios e verificação dos controles. Os dados devem sustentar decisões e ações de melhoria.
Esse acompanhamento também permite reconhecer mudanças de demanda, falhas recorrentes e riscos que exigem revisão do processo.
Como funciona a gestão por processos na prática?
Na prática, a gestão por processos combina organização da rotina, acompanhamento dos resultados e aperfeiçoamento do trabalho. Para visualizar, considere um exemplo hipotético de atendimento de reclamações em uma empresa prestadora de serviços.
O processo começa quando o cliente apresenta uma reclamação. O atendimento registra as informações, a área responsável analisa o problema, a equipe executa a ação necessária e o cliente recebe uma resposta sobre o tratamento realizado.
| Elemento | Aplicação no exemplo |
|---|---|
| Entrada | Reclamação e informações sobre o serviço afetado |
| Atividades | Registrar, classificar, analisar, tratar, comunicar e verificar a resolução |
| Participantes | Atendimento, operação, supervisão e outras áreas, conforme o problema |
| Saída | Reclamação tratada, resposta enviada e resultado registrado |
| Controles | Critérios de prioridade, prazos, responsáveis e evidências do tratamento |
| Indicadores | Cumprimento de prazos, tempo de solução e reincidência |
Se o atendimento apenas encaminhar a mensagem, sem acompanhar seu andamento, a reclamação pode ficar parada entre as áreas. A gestão por processos estabelece quem assume cada etapa, quais informações devem acompanhar a demanda e quando um atraso precisa ser comunicado ao responsável pelo processo.
O encerramento deve seguir critérios definidos, como verificar a ação executada e comunicar o resultado. Uma resposta rápida pode ser insuficiente se o problema continuar. Por isso, o acompanhamento deve combinar prazo e qualidade da solução.
Como implementar a gestão por processos?
A implementação pode ser organizada em seis etapas: identificação, mapeamento e documentação, análise, redesenho, implementação das mudanças e monitoramento. Essa sequência é um roteiro de aplicação, que deve ser ajustado à realidade da empresa.
Antes de iniciar, a direção deve definir o objetivo da iniciativa, assegurar recursos e indicar quem coordenará o trabalho. Para uma primeira aplicação, é recomendável selecionar um processo relevante, com escopo viável e participação das áreas envolvidas.
1. Identificação dos processos
Identifique quais processos sustentam as entregas e os objetivos da organização. Converse com as áreas e observe como demandas, materiais e informações circulam.
Evite confundir o nome de um setor com um processo. “Financeiro” é uma área; “realizar pagamentos” é um processo, com início, atividades e resultado esperado.
Registre o nome, a finalidade, o evento que inicia o processo, seu limite de encerramento e as áreas participantes. Depois, priorize considerando impacto no cliente, riscos, frequência de falhas, relevância estratégica e viabilidade de intervenção.
Entrega da etapa: relação dos processos e escolha daquele que será trabalhado primeiro.
2. Mapeamento de processos e documentação
O mapeamento de processo representa como o trabalho realmente acontece. Observe a execução, entreviste os profissionais e consulte registros. Considere também exceções, devoluções e decisões.
O registro deve permitir responder:
- O que inicia o processo e quais entradas são necessárias?
- Quais atividades e decisões ocorrem, e em que sequência?
- Quem executa, verifica e autoriza cada etapa?
- Quais informações, recursos e controles são utilizados?
- O que encerra o processo e quem recebe sua saída?
Um fluxograma ajuda a visualizar o percurso. Uma descrição complementar pode esclarecer prazos, critérios e procedimentos. Valide o conteúdo com quem executa o trabalho para evitar representar apenas a rotina idealizada.
Entrega da etapa: mapa da situação atual e documentação necessária à sua compreensão.
3. Análise dos processos
A análise identifica problemas, causas e oportunidades de melhoria. Procure gargalos, esperas, retrabalho, duplicidade de registros, informações incompletas e controles insuficientes.
Compare o desempenho observado com os requisitos. Se as reclamações demoram para ser resolvidas, verifique em qual etapa ficam paradas e por quê. O atraso pode decorrer de distribuição inadequada, falta de informação, capacidade insuficiente ou dificuldade de decisão.
Estabeleça uma referência inicial de desempenho antes das mudanças. Isso permitirá avaliar os resultados posteriormente. Considere também os riscos: uma etapa pode ser rápida e, ainda assim, permitir erros com consequências relevantes.
Entrega da etapa: diagnóstico dos problemas, suas causas e prioridades de tratamento.
4. Redesenho dos processos
O redesenho define como o processo deverá funcionar. As mudanças podem envolver sequência, responsabilidades, critérios de decisão, recursos, comunicação ou sistemas.
No exemplo das reclamações, uma melhoria possível seria adotar um registro padronizado, definir a classificação de urgência e atribuir um responsável por acompanhar cada demanda até o encerramento.
Avalie se as propostas tratam as causas identificadas e se são viáveis. Simplificar exige distinguir atividades desnecessárias de controles importantes. Uma aprovação que previne pagamento indevido, por exemplo, precisa ser avaliada conforme o risco antes de ser alterada.
Entrega da etapa: desenho futuro validado, controles definidos e plano de mudança.
5. Implementação das mudanças
A implementação transforma o desenho aprovado em prática. Defina ações, responsáveis, prazos, recursos e critérios para verificar a adoção.
Atualize os documentos, prepare sistemas e formulários, capacite os participantes e comunique como o trabalho será conduzido. Quando viável, teste as mudanças em uma unidade, equipe ou conjunto limitado de demandas antes de ampliar sua aplicação.
Acompanhe a transição de perto. Dificuldades relatadas pela equipe podem revelar lacunas no desenho ou necessidades de apoio. Também é necessário verificar se o novo fluxo foi compreendido e se os recursos previstos estão disponíveis.
Entrega da etapa: processo em operação, com equipe preparada e registros da execução.
6. Monitoramento, controle e melhoria contínua
O monitoramento verifica se o processo entrega o resultado esperado. Escolha indicadores ligados ao objetivo e defina fórmula, fonte dos dados, frequência, responsável e meta.
No atendimento de reclamações, podem ser utilizados:
- Percentual de reclamações solucionadas dentro do prazo.
- Tempo de solução por categoria de reclamação.
- Quantidade de reclamações pendentes com prazo vencido.
- Frequência de reincidência dos problemas tratados.
Em um exemplo hipotético, 90 reclamações tinham prazo de solução vencendo no mês, e 72 foram solucionadas dentro desse prazo. O indicador seria:
Cumprimento do prazo = (72 ÷ 90) × 100 = 80%.
Nesse cálculo, entram todas as reclamações cujo prazo vencia no período, inclusive as que permaneceram abertas. Assim, as pendências não desaparecem da avaliação.
Analise os desvios, investigue suas causas e acompanhe as ações corretivas. O ciclo PDCA pode organizar essa rotina: planejar a melhoria, executá-la, verificar os resultados e agir para ajustar ou consolidar o que funcionou.
Entrega da etapa: avaliação periódica do desempenho e melhorias verificadas.
Quais erros evitar na gestão por processos?
Um erro frequente é produzir muitos documentos sem utilizá-los na rotina. O mapa precisa apoiar decisões, treinamento, execução e análise de problemas.
Outros cuidados relevantes são:
- Envolver os executores: mudanças construídas sem conhecer o trabalho real podem ser inviáveis.
- Definir responsabilidade e autoridade: acompanhar resultados exige condições para articular soluções entre as áreas.
- Medir qualidade e prazo: reduzir tempo não basta quando aumentam erros ou reclamações.
- Avaliar o fluxo completo: uma melhoria local pode criar sobrecarga na etapa seguinte.
- Manter os registros atualizados: documentos desatualizados prejudicam a orientação e o controle.
- Dar continuidade à gestão: após a implantação, os processos precisam de acompanhamento e revisão.
A documentação e os controles devem ser proporcionais às necessidades. O objetivo é tornar o trabalho compreensível, coordenado e confiável.
Como começar a aplicar a gestão por processos
A gestão por processos ajuda a conectar estratégia, pessoas e atividades à qualidade das entregas. Sua aplicação exige compreender o trabalho, coordenar responsabilidades e utilizar evidências para aperfeiçoar os resultados.
Para começar, escolha um processo que apresente uma dificuldade relevante. Reúna as pessoas envolvidas, identifique onde surgem as falhas e defina uma melhoria com responsável, prazo e critério de avaliação. Acompanhe o resultado e utilize o aprendizado para orientar os próximos passos.
Qual processo da sua organização precisa ser melhor compreendido e coordenado para entregar mais valor ao cliente?
Perguntas frequentes sobre gestão por processos
Gestão por processos serve para pequenas empresas?
Sim. A aplicação pode começar com poucos processos, registros simples e indicadores essenciais. O nível de formalização deve acompanhar o tamanho, a complexidade e os riscos do negócio.
É necessário adquirir um software para começar?
Não. Entrevistas, observação, fluxogramas, formulários e planilhas podem apoiar as primeiras aplicações. A necessidade de sistemas depende do volume de trabalho, das integrações, dos controles e das informações exigidas.
Mapear processos é suficiente para implementar essa gestão?
Não. O mapeamento mostra o funcionamento do trabalho. A gestão por processos também exige definir objetivos, coordenar a execução, acompanhar resultados e realizar melhorias.
Como saber se um processo realmente melhorou?
Compare o desempenho anterior e posterior à mudança utilizando critérios consistentes. Verifique prazo, qualidade, uso dos recursos e riscos relevantes. Confirme também se a melhoria se mantém e se não transferiu dificuldades para outras etapas.
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